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Histórias de Vida 18/05/2011 - 08:48
O Quilombola que a região não vê
Eles surgiram como a mais forte expressão da resistência dos negros à escravidão. Rejeitando a cruel forma de vida, os negros buscavam a liberdade e uma vida com dignidade, resgatando a cultura e a forma de viver que deixaram na África.
Praia Grande
Banco de imagens J A
“Eu não sobreviveria ao tronco. Acho que se eu estivesse naquela época, daria um jeito de me vingar dos senhores de engenho”, exclamou.

 

Na terceira reportagem da Série Especial em alusão ao Dia Internacional de Histórias de Vida, comemorado no dia 16, o Jornal Amorim segue retratando na edição de hoje, o alicerce étnico que norteou a vida de uma cidadã, moradora da Cidade dos Canyons.

 

Resistindo ao avanço do capitalismo e à grilagem de terras, em todo território nacional, centenas de quilombos ainda permanecem. A história dessas comunidades tem sido escrita com tintas de sangue.  Eles surgiram como a mais forte expressão da resistência dos negros à escravidão. Rejeitando a cruel forma de vida, os negros buscavam a liberdade e uma vida com dignidade, resgatando a cultura e a forma de viver que deixaram na África e Alguns foram totalmente dizimados, deles só restando à memória de heróis até hoje reverenciados, como Zumbi dos Palmares.

Isso é o que conta a coordenadora da comunidade Quilombola do município de Praia Grande, Maria Rita dos Santos (52).

A descendente de escravos nasceu no dia 18 de março de 1959, se criou na comunidade onde vive até os dias atuais. Segundo ela, os seus bisavôs eram escravos e seus avôs, tiveram a sorte de viver na época em que foi decretado a Lei do Ventre Livre. Dona Maria conta que na comunidade em que viveu sua vida inteira, foi muito feliz. “Minha infância foi ótima, marcada pela cultura negra quilombola. Lembro que costumava a brincar com meus 13 irmãos com objeto feito por nós mesmos. As bonecas eram de pano, e as brincadeiras eram ensinadas por nossos pais”, falou.

 A infância escrita na simplicidade

Sua infância foi regrada pela simplicidade, sem luz, água encanada, a comunidade vivia isolada de tudo e todos. “Nós dormíamos em camas feitas de pau tirado do mato, e nós cobríamos com panos velhos e palha. Nossa realidade era igual as cenas mostradas nas novelas”, explicou ela, acrescentando que os bisavós contavam que o tronco era o pior de tudo. “Eu não sobreviveria ao tronco. Acho que se eu estivesse naquela época, daria um jeito de me vingar dos senhores de engenho”, exclamou.

A mulher que chegou a completar o segundo grau, diz que estudou dentro da comunidade e conhece a história dos negros no Brasil. “A maioria, de nós, sobreviveu à repressão dos colonizadores. Mas a história de luta está longe de terminar. O inimigo é o mesmo – a ambição humana”, falou referindo-se a latifundiários.

Ela ressalta que os quilombos têm uma importância histórica muito grande. “Não somos apenas um grupo de afro-descendentes, mas também podemos ser tratados como uma cooperativa” analisou sobre a questão de trabalho comunitário.

A mulher lembra as histórias contadas pelos mais velhos da comunidade, que muitas vezes tentam esquecer as perseguições, assassinatos, expulsões e uma miséria estrutural que marca a trajetória dos quilombolas até o final do século XIX. Hoje a situação não é tão diferente de há quatro séculos, quando surgiram os “Territórios Livres” dos negros fugitivos. Sempre relegados ao esquecimento, pela primeira vez o governo Federal toma providências jurídicas a fim de solucionar o problema dos conflitos de terra nas Comunidades Remanescentes de Quilombos.

 Reconhecimento legal leva dignidade às comunidades Quilombolas

Dona Maria casou-se com um membro da comunidade e possui dois filhos que também moram lá. Ela considera-se feliz com modo de vida que leva, atualmente a comunidade já possui energia elétrica e água encanada e recebe cerca de 20 famílias quilombolas. “Nossa história é rica e nossos negros fortes. Vivemos em nossa comunidade de acordo com a cultura africana, plantando e produzindo. Acredito que o quilombo, não era o isolamento e a fuga, mas sim a resistência e a autonomia. Deixar de ser escravo e passar a camponês livre, definiu. Tudo isso demonstra que a classificação de comunidade como quilombola não se baseia em provas de um passado de rebelião e isolamento, mas depende antes de tudo de como aquele grupo se compreende, se define. Atualmente, a legislação brasileira já adota este conceito de comunidade quilombola e reconhece que a determinação da condição quilombola advém da auto-identificação. Este reconhecimento foi fruto de uma luta árdua dos quilombolas e seus aliados que se opuseram às várias tentativas do Estado de se atribuir a competência para definir quais comunidades seriam quilombolas ou não.

Por: Fernanda Rosa
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