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Geral 19/01/2012 - 10:21
Família clama por justiça!
Caminhoneiro sombriense há oito meses preso em Cuiabá espera decisão judicial para provar sua inocência
Sombrio
Banco de imagens J A

 

A vida do sombriense Luciano Quiles Pedro, 34 anos, caminhoneiro, casado com há nove anos com Tatiane Réus Pedro e pai de Yasmim Réus Pedro, de dois anos, mudou no dia 28 de Maio de 2011. A vida dele e de sua família, amigos, tios, mãe, irmãos... Enfim, sofreu uma mudança para pior, graças a uma injustiça cometida longe de sua cidade natal.

Luciano está preso em Cuiabá, capital do Mato Grosso do Sul há quase oito meses, por tráfico de drogas, após acusação de uma senhora do Acre flagrada com 6,220kg de pasta de cocaína pela Polícia Federal.

“É completamente absurda essa prisão, o que estão fazendo com meu sobrinho é de uma injustiça sem tamanho, só indo lá e vendo a injustiça, a corrupção que é”, reclama Antônio Colares Eufrásio, o Toninho, tio de Luciano e responsável por tomar a frente na luta pela justiça.

 

A prisão

 

Funcionário da empresa Maderatti, de Sombrio, Luciano traz, no caminhão bi-trem que trabalha, madeiras do norte e do centro-oeste do país para Santa Catarina, mas para chegar até lá transporta outras mercadorias, afim de fazer render a viagem.

Seguindo sua rotina, Luciano estava em Cuiabá no dia 28 de Maio, enquanto paralelamente uma investigação da Polícia Federal do estado do Acre, sobre Tráfico de drogas seguia seu curso.

Uma mulher, negra, com idade em torno dos 40 anos, saiu da cidade de Rio Branco, capital acreana, rumo a Cuiabá, em busca do material com o qual seria flagrada. Ao chegar, pela manhã, em seu destino, desembarcou no aeroporto local e foi até um hotel da cidade. A Polícia Federal do Acre então avisou os policiais de Cuiabá, que colocaram dois homens para prosseguir a investigação.

No hotel, Ruberlândia, que é como se chama, fez o check in, pediu um mototaxie se dirigiu a um posto de combustíveis há cerca de 30km de onde estava. No posto, foi até uma lojinha de conveniências anexa e esperou a chegada de um caminhão furgão. O veículo estacionou, a mulher se dirigiu ao mesmo sem nada nas mãos e voltou com uma bolsa. Voltou à lojinha, pediu que o proprietário chamasse um mototaxi para ela, mas ele não atendeu seu pedido, indicando um orelhão para que ela fizesse o chamado.

Ela mesma chamou seu transporte, voltou ao hotel e ao chegar foi interceptada pelos policiais federais, que comprovaram, ela realmente tinha mais de seis quilos de pasta cocaína nas mãos.

Enquanto isso, Luciano fazia seu trajeto, descarregou e foi até uma oficina, arrumar uma parte da lataria do caminhão, antes de seguir viagem. Com a oficina fechada, almoçou e só depois se dirigiu para o conserto. Enquanto esperava, sempre ao lado do mecânico que mexia no veículo, Luciano viu uma movimentação estranha de um homem, um pouco distante, apontando com o dedo indicador em sua direção. Sem saber se era ele mesmo, se aproximou novamente do homem e teve certeza, era ele o apontado e era dele que o homem falava.

Mal sabia Luciano, antes de perguntar do que se tratava, de que o homem era um dos policiais federais. O policial perguntou à mulher se era ele (Luciano) mesmo. Ela confirmou. Luciano perguntou o que eram que estavam falando e o policial lhe deu voz de prisão, o algemando e colocando no carro, para encaminhá-lo a delegacia.

O mecânico ficou indignado, afirmou que os policiais estavam pegando o homem errado, que no tempo que ficou na oficina não havia falado com ninguém, nem saído de perto, que era um homem trabalhador que só arrumara o caminhão antes de seguir viagem. Os policiais sequer o ouviram. Iniciava naquele momento e naquele local, um drama familiar digno de um filme, mas que era muito real.

Alegando inocência, mostrando que fizera três ligações durante o dia, uma delas para o chefe, outra para falar sobre a carga e outra para sua esposa, e sem saber direito do que se tratava, Luciano foi encaminhado à prisão.

 

Família recebe a notícia

 

Já durante a tarde, o tio, Toninho, recebeu a ligação de Luciano afirmando estar preso por tráfico. Sem pensar duas vezes e após se informar melhor do que se tratara, Toninho toma providências e viaja para Cuiabá, afim de contratar advogado e tirar logo o sobrinho de um lugar que jamais mereceu estar.

“O erro dele é ser trabalhador. É um cidadão extremamente respeitoso, que vive do faz no dia a dia, com 11 anos de carteiras assinada, achamos que sairia fácil”, lembra Toninho, que chegou a Cuiabá no dia 1º de Junho.

Apenas achava. A decepção com o judiciário cuiabano e com a incompetência dos policiais que sequer anotaram a placa do caminhão usado no transporte da droga, o fez ficar doente, triste e certo que havia armação para cima de Luciano.

O irmão de Luciano, Rodrigo, o visita constantemente e não o deixa desamparado. O advogado contratado para defender Luciano, de Cuiabá, foi substituído após alguns acontecimentos e após não ser achado quando a família mais precisava, como se não fizesse força pelo caso. Foram 60 dias longe, imaginando que tudo estava sendo tratado da forma correta. O substituto é um advogado de Tubarão que, de acordo com Toninho, tem feito um ótimo trabalho.

 

Os absurdos da investigação

 

A mulher, Ruberlândia, é esposa de um traficante que já está preso, assim como ela agora, mas não teve a vida investigada a fundo. Seu trajeto, suas ligações e até suas respostas não foram consideradas como deviam.

Luciano entregou agenda e telefone e teve atendido ao pedido de quebra de sigilo telefônico, que comprovou sua afirmação de que fizera apenas três ligações naquele dia.

No dia 13 de Dezembro de 2011, mais uma vez o tio, Toninho, foi a Cuiabá, junto de outros parentes, para uma audiência que dava a certeza de que, a partir daquele momento, se tudo fosse feito com honestidade, ele seria declarado inocente, pois as evidências eram muito claras.

No fórum, outra decepção da família. A mulher, traficante presa em flagrante, ouviu da promotoria duas perguntas: “Foi ele quem te levou a droga?” e “Tem Certeza?”, referindo-se sempre a Luciano. As respostas: “Sim”, e “tenho”.

O advogado, que viu a oportunidade de fazer mais perguntas, interpelou e fez ele suas indagações. Perguntada se conhecia Luciano, se já tinha obtido contato com ele e se sabia que era ele que levava as drogas, negou todas elas. Quando o advogado perguntou como ela sabia então ele estaria com a droga, ela respondeu de forma evasiva com um simples “não sei”, para logo depois a juíza pedir que o advogado parasse com as perguntas, que eram muitas.

Já as testemunhas de Luciano foram “massacradas pela promotoria”, é o que afirma seu tio. “Pressionaram, massacraram, fizeram terrorismo psicológico, o dono da lojinha já estava saindo do sério e quando se alterou, mantendo sua versão sem se contradizer uma vez sequer, foi interrompido, tendo sua participação encerrada”, afirma.

Um dos policiais que agiram naquele dia também testemunhou e deixou claro que o caminho percorrido por Luciano e seu histórico limpo não davam qualquer ideia de que ele estava envolvido com o crime.

O outro policial, que tinha importantes versões, inclusive por não ter visto Luciano e ter visto a entrega da droga no posto foi dispensado do testemunho.

Mesmo com tudo contra, Luciano e sua família saíram convictos de que seria comprovada sua inocência em breve e a esperança da família era tê-lo em casa no Natal, para esquecer tudo o que passaram. Ledo engano. O resultado ainda não saiu e Luciano segue preso no presídio de Carumbé, na capital de Mato Grosso.

“A sela que ele está, hoje, pode ser considerada um hotel cinco estrelas, em vista das que ele já ficou”, lembra o tio.

 

Família, amigos e suas reações

 

A esposa de Luciano ainda não foi visita-lo, nem deve. Ele mesmo não quer. Não queria também que sua mãe fosse, mas dona Cleuza Andrade Quiles não aguentou, se deslocou a Cuiabá e o visitou na prisão. “Foi uma das cenas mais tristes que já vi. Dói de mais saber que um homem inocente está preso por um erro da polícia e uma injustiça”, relata, secando as lágrimas que caem de seu rosto.

Precisando da colaboração de pessoas mais fortes politicamente no cenário nacional, para não lutarem sozinhos contra um sistema viciado, procuraram alguns deputados e senadores para conseguirem auxílio. Mais foi de onde menos se esperava que a ajuda surgiu. Paulinho Cabral, amigo da família, morador de Santa Rosa do Sul, os apresentou um homem que se tornaria um anjo para eles. Amauri Magnus Germano, prefeito de Capão da Canoa, no Rio Grande do Sul que se inteirou do caso e afirmou: “vou fazer como se fosse com um filho meu”.

“Ele usou sua influência, deputados federais e senadores, agora, exigiram um relatório da juíza para saber por que Luciano está preso. Relatório que deve sair nos próximos dias”, explica Toninho, que completa: “não foi só isso. Ele nos levou duas vezes no Palácio do Piratini, onde funciona o governo do Rio Grande do Sul e, como se nos pegasse pela mão, nos colocou em uma mesa redonda em reunião com membros dos Direitos Humanos do Rio Grande do Sul”.

A partir desta ajuda, que foi a mais forte até então, a família teve ainda mais forças para seguir lutando pela saída de Luciano, que só conversa com os familiares quando eles vão a Cuiabá, desde sua prisão, teve direito a apenas dois telefonemas para casa.

Sem saber a reação que a família terá quando Luciano sair, Toninho nem faz planos, só torce, reza e se esforça para que tudo se encaminhe logo. A família nem trabalha com a possibilidade dele ser considerado culpado. “Não tem como. Sua inocência está muito clara”, completa Toninho.

Para Luciano, só a fé resta para a esperança de sair seguir forte. Duas calças já têm buracos, de tanto rezar ajoelhado pedindo justiça.

 

Fabrício Espíndola
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