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Edmilson Colares
Meio Ambiente
Colunas 24/10/2011 - 14:58
Contradição Evolutiva

Vivemos em um mundo em que produzimos mais alimentos do que jamais o fizemos e onde os famintos nunca foram tantos. Há um motivo para isso: durante muitos anos nosso foco foi no aumento da oferta de alimentos, ao mesmo tempo em que negligenciamos tanto os impactos distributivos da produção de alimentos, quanto seus impactos ambientais de longo prazo.

Tivemos êxito notável no aumento do rendimento. No entanto, precisamos agora perceber que mesmo tendo condições de produzir mais, não somos capazes de afrontar a fome ao mesmo tempo; que aumentos em rendimento – embora uma condição necessária para aliviar a fome e a desnutrição – não são uma condição suficiente; e que à medida que incrementamos de modo espetacular os níveis gerais de produção durante a segunda metade do século 20, criamos as condições para um desastre ecológico de grandes proporções no século 21.

Há evidências crescentes de que a mudança climática afetará de modo expressivo a produção agrícola. De fato, a mudança climática já está ameaçando a capacidade de regiões inteiras, particularmente aquelas com agricultura de sequeiro, manterem os níveis anteriores de sua produção agrícola.

De acordo com o Programa de Desenvolvimento da ONU, é possível que o acréscimo do número de pessoas sob o risco de fome chegue a 600 milhões até 2080, como um resultado direto da mudança

climática.

Eos resultados já se mostram para os mais observadores. A onda de calor que varreu o oeste da Rússia no verão de 2010 parecia, num primeiro momento, uma crise local. As temperaturas subiram para 40 ºC ou mais por várias semanas, fazendo com que Moscou parecesse Dubai.

Uma população que, de modo geral, não dispõe de ar-condicionado, sofreu com as temperaturas sufocantes. As condições se deterioraram mais ainda quando a onda de calor causou incêndios florestais de grandes proporções, destruindo bairros suburbanos e deixando os moscovitas se asfixiarem com a densa fumaça por mais de uma semana. Antes de a calamidade ter chegado ao fim, o primeiro-ministro Vladimir Putin assumiu os comandos de um avião para apagar incêndios, em um esforço teatral para mostrar que o governo não havia perdido o controle da situação.

Para outras partes do mundo, o clima atípico na Rússia pareceu inicialmente um espetáculo televisivo, até ficar claro que a onda de calor e a seca que a acompanhou haviam devastado a lavoura de trigo do país. Depois de alguns dias, as autoridades russas anunciariam a suspensão das exportações de trigo, o que imediatamente disparou os preços mundiais em mais de 30%, com efeitos diretos sobre o mercado do milho, da soja e demais mercados mundiais de alimentos.

Esse segundo aumento vertiginoso nos preços mundiais de alimentos em apenas dois anos foi um duro lembrete da vulnerabilidade de um sistema alimentar mundial que se esforça para dar de comer a cerca de 6,9 bilhões de pessoas em meio a uma série de limites ambientais e um clima mundial cada vez mais instável. As linhas de frente desta crise agrícola estão ocupadas pelas 925 milhões de pessoas subnutridas no mundo – muitas das quais crianças morando na África e sul da Ásia – que enfrentam a perspectiva de verem suas vidas ainda mais precárias nos próximos meses.

 

Fonte para pesquisa: Relatório do Worldwatch Institute sobre o Avanço Rumo a uma Sociedade Sustentável 2011.

www.worldwatch.org.br

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